Relato de Pós Parto: Internação

Como relatado no post anterior, quando cheguei no Hospital Mãe de Deus  em Porto Alegre, RS, para dar a luz, fiquei desapontada com o tratamento na maternidade. Eu não tinha contato prévio com hospital, mas achei de estrema frieza a lida do staff. Antes, eu havia visitado a maternidade, conhecido parte das instalações e tirado dúvidas. No entanto, porque a maternidade estava lotada, não conheci a sala de parto em si, mas me asseguraram que teria acesso a facilitadores como a bola de pilates, a banqueta de parto e etc. Como já disse, não foi assim que aconteceu… Como não tive a experiência completa de um parto natural, me cabe falar dos aspectos pós cirúrgicos do hospital.

Depois da cirurgia, me levaram para a sala de recuperação. Uma sala com várias cortinas, cada uma delimitando um “box”. Fiquei lá sozinha, sem poder me mexer e finalmente caiu a ficha de que minha filha tinha nascido, eu tinha passado horas em trabalho de parto e recém feito meu primeiro procedimento cirúrgico. Chorei com a realização de tudo que tinha acontecido e embora tenha durado horas, o quão rápido pareceu. De repente meu marido chega com a Stella para mostrar aos avós “na janela” da maternidade, que dá para a sala de espera. Quando retornou, a enfermeira mandou ele se trocar e enquanto ele estava fora, ela colocou a Stella no meu peito para mamar. Esse foi o momento mais desesperador da minha noite. Me colocaram um bebê nos braços, no peito, mas eu estava completamente deitada e não conseguia me mexer para acomodar o bebê no seio. Foi horrível e até agora me emociono com o sentimento de impotência de ter aquela coisinha nos meus braços e não conseguir fazer nada do que parece instintivo. Eu chamei a enfermeira porque achei que o bebê estava sufocando. Pedi para ela erguer a cabeceira da cama para eu poder lidar melhor com ela, mas a enfermeira disse que não podia porque eu teria dores de cabeça e tirou ela de mim. Fiquei muito agoniada. É a coisa mais cretina do mundo colocar um bebê ao lado de uma pessoa que quer, mas não consegue se mexer o suficiente para lidar com ele. Meu marido então chegou e ficou com a Stella enquanto eu só podia olhar. Eu odiei o fato de ter dado a luz um bebê o qual não consegui segurar junto de mim quando nasceu, nem amamentar, cheirar, examinar, entender que era meu. Ficamos na sala de recuperação por muitas horas além do que deveria. Eram tantas cesarianas marcadas naquela noite, que não tinha staff para liberar as pessoas da recuperação para o quarto. Foi um tremendo desrespeito. A sala de recuperação é uma bagunça onde você não consegue descansar porque as pessoas conversam, os bebês choram e a cada momento entra um novo pai emocionado com um novo bebê para mostrar na janela e você escuta as pessoas gritando no lado de fora. Não dá para se recuperar de nada nesse ambiente! E quando um bebê chora, os outros acompanham. Meu marido tinha ido comer algo, pois também estava sem comer há quase 24 horas, como eu, e fiquei sozinha. Então, um bebê começou a chorar e a Stella começou a chorar também. Chamei a enfermeira para me entregar ela e a enfermeira resolveu levar ela para tomar complemento no copinho para se acalmar. Quase surtei! Pedi que não levasse porque eu não queria dar complemento, mas a enfermeira nem me respondeu. Fiquei ligando pro meu marido, chorando, me sentindo um ser inútil por ter uma filha e não conseguir impedir que levassem ela de mim. Achei um absurdo a enfermeira dar complemento pra uma criança que nasceu há duas horas, sendo que um bebê pode ficar três dias sem comer e não morrer de fome! Quando meu marido chegou foi direto ver o que a enfermeira estava fazendo, mas ela já tinha dado o complemento e estava colocando mil roupas na criança, pois a sala estava gelada e a roupa que ela estava foi planejada para uma temperatura amena, como me disseram que seria na maternidade. Depois de a criança ser vestida com dois macacões, meias, luvas e toca, a enfermeira resolveu desligar o ar e minha filha, então, passou calor. Ficamos seis horas na sala de recuperação. O previsto eram três. Depois de 24 horas acordados, cansados, depois de um dia como aquele, ainda tivemos que esperar devido a falta de organização do hospital. Além disso, quando íamos para o quarto meu marido descobriu que a central da internação não tinha passado para a sala de recuperação a informação de que ficaríamos num quarto privativo, então quase fomos para um quarto semi-privativo, onde não tem lugar para o acompanhante. Realmente um desrespeito.
Quando finalmente fomos para o quarto, às 2:30h da madrugada do dia 27/01, a enfermeira me disse que eu precisava tomar banho. Sim. Tomar banho. Segundo ela, já fazia seis horas da cirurgia e eu precisava caminhar e tomar banho por causa da anestesia. Eu não conseguia manter meus olhos abertos, concatenar palavras pra que saíssem de forma coerente da minha boca, e a criatura queria que eu levantasse e tomasse um banho. Parecia piada. Eu consegui levantar, mas não conseguia me mexer e ela dizia: “Mas tu precisa tomar um banho!”. Eu disse que se eu me mexesse iria cair de cansaço, porque eu não estava nem enxergando direito. Ela então disse que era melhor não e me deitou de novo. No outro dia, contei o episódio ao médico que disse que aquilo era o mais completo absurdo. Que eu não deveria nem poderia tomar banho antes de passadas 12 horas da cirurgia. Passado isso, eu achei que teria paz, mas ainda veio uma enfermeira falar sobre amamentação e como evitar quedas e outras para me dar remédio intravenoso naquele acesso que me causava dor e preocupação porque parava dependendo de como eu mexia o braço. Quando finalmente pudemos descansar os três, sempre havia alguém entrando no quarto para uma coisa ou outra. E assim foi durante as 48h de estadia no hospital. Além disso, Não tinham deixado lençol ou toalha para meu marido. E ele ainda dormiu sem travesseiro.

Nesse momento eu já podia ingerir líquidos, então pude beber água. Me deram também um suco industrial de maçã. Para meu marido, nada. Graças ao plano de saúde, ele tinha vouchers para usar no restaurante dos acompanhantes por dois dos três dias previstos de internação. Na manhã seguinte, às sete horas já tinha gente no quarto, ministrando remédios, mexendo na Stella, limpando. Uma alegria para quem tinha conseguido dormir às 03:00h. E como dormir com o desconforto de uma cirurgia? E uma sonda? E um bebê que você olha a cada mudança na respiração? E seu marido, que você chama para que lhe entregue o bebê ou coloque o bebê de volta no berço? É muita coisa!

A comida do hospital é exatamente isso: comida de hospital. Durante as 48h de internação o que mais aproveitei foi o café da manhã e da tarde, porque a comida em si me dava repulsa. Eu achei estranho servirem café na maternidade, considerando que cafeína agita o bebê, mas como não existe mais berçário, azar o seu né?!

O tempo que fiquei no hospital foi mesmo ruim. A única coisa legal foi que lhe dão uma lata com shampoo, loção e lencinhos da Johnson’s e um kit da Life com Bepantol Baby, uma pomada para cicatrização e um mini pacote de fraldas. Além disso, você recebe dez fraldas Pampers RN e um pacote de absorvente noturno. Só. Quando o médico me liberou com um dia de antecedência, eu fiquei feliz mas receosa, afinal, ir pra casa nesse estado pós cirúrgico com um bebê novo me deu medo. Mas tirando o remédio na veia, nada no hospital podia ser vantajoso em relação a minha casa. Não houve descanso no hospital. Cheguei às 12:30h do dia 26/01 e saí às 19h do dia 28/01, mas na minha cabeça ainda era dia 25/01, pois eu fui dormir na noite do dia 25 e tudo aconteceu sem parar até ali. Foi em casa que eu notei que já haviam se passado dias.

Com minha experiência, eu sugiro que você possa conhecer os hospitais disponíveis o mais rápido possível. Eu havia lido que o Mãe de Deus era preparado para parto humanizado, mas não é verdade. Nem a estrutura nem o staff tem qualquer noção de parto humanizado. Quando eu disse para a enfermeira que não queria ficar ligada na máquina de monitoramento fetal, ela disse que eu teria que assinar um termo de responsabilidade que dizia que não permiti que elas fizessem o trabalho dela. PQP, né?! Como é que meu médico não me fez ficar amarrada naquilo? E outra, embora eu tenha escrito um Plano de Parto, assim como meu próprio médico, nenhuma enfermeira quis sequer olhar o meu Plano, ou seja, ninguém liga pra você. Você é um problema que tem que ser resolvido e, de preferência, logo.

Com relação ao seu filho, não importa que tenha um nome. Será tratado como RN de FULANA durante toda a internação. Quando entram no quarto perguntam o nome, ninguém lê a placa na porta…

Se você está grávida ou pretende ficar, estude e se informe. Se informe sobre os tipos de parto, sobre o pós parto, sobre a maternidade e a internação. Infelizmente Porto Alegre não tem muita referência em parto humanizado e eu ouvi dizer que o melhor hospital nesse aspecto é o Conceição, o qual atende SUS. Além disso, a encantadora idéia de ter um parto cirúrgico para evitar as dores das contrações é realmente bonito na teoria, pois tenho certeza que é muito melhor você sair caminhando da sala de parto, com seu bebê nos braços, do que passar a próxima semana sem conseguir se mexer de forma natural e sem conseguir cuidar do seu bebê.

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Relato de Parto: 26 de Janeiro de 2016.

Se eu tinha uma certeza ao final dessa gravidez, era a de que minha bolsa não estouraria antes das contrações chegarem. Após ler que apenas 4% das mulheres entram em trabalho de parto antes de completar 40 semanas de gestação e que em apenas 15% das gestações a bolsa amniótica se rompe antes do início das contrações, eu estava certa de que eu não faria parte dessa minoria. Pois eu estava errada.

Com 39 semanas e 5 dias, Stella se anunciou na madrugada do dia 26 de janeiro, com o rompimento da bolsa às 02:45h. Acordei sentindo água entre as pernas e saltei da cama. Fiquei em pé, já recolhendo o lençol e jogando-o no chão sobre a água que ainda escorria perna abaixo. Chamei meu marido e disse: “Acende a luz porque a bolsa estourou!”.

Fui tomar banho e chamei minha mãe avisando que a bolsa havia estourado e pedindo que ela tirasse o lençol do quarto e o colocasse para lavar. Nisso, senti uma incrível vontade de ir aos pés e, durante, a primeira contração. Resolvi pegar a bola de pilates e tomar aquele longo banho o qual recomendam por acelerar ou parar o trabalho de parto (TP), ou seja, se é chegada a hora, o banho longo ajuda. Caso contrário, ele diminui as contrações e finda o TP. Assim que fui para o banho comecei a sentir as contrações. Meu marido ficou comigo anotando o horário para o intervalo das contrações. “03:02… 03:08… 03:11… 03:14h…”. Cada contração durava em torno de trinta segundos e não seguiam um intervalo ritmado. Era o início do TP, como havia lido. E lembro de pensar: “Justo essa noite que eu fui dormir tarde…”. As contrações nunca tinham um intervalo maior do que cinco minutos entre elas e às 05:21h, paramos de anotar.

Às cinco horas da manhã eu liguei para a doula. Eu estava com pena de acordar ela, e ligar para o médico não era opção, porque sei que o procedimento padrão de quando se estoura a bolsa é ir para o hospital, e eu sabia que se fosse para o hospital não poderia estar com a doula, pois meu médico é bastante conservador e não é a favor dessa vertente, então nem falei para ele que havia contratado uma. É importante ressaltar que só tomei a decisão de ficar em casa porque havia feito uma ecografia dias antes na qual a médica disse que o bebê estava bem demais, com bastante líquido em volta e soluçando (se o bebê soluça, significa que não engoliu/aspirou mecônio). Além disso, eu tinha a minha disposição o aparelho de ouvir os batimentos do coração do bebê, então eu  podia monitorar caso houvesse alguma mudança. No telefone, falei para a doula que estava tranquila, usando o aparelho TENS que havia comprado no Mercado Livre para “diminuir” o desconforto da contração (existem artigos sobre o assunto!), e que ela poderia vir para minha casa às sete horas da manhã. Quando ela chegou, tiramos o aparelho e ela e meu marido faziam massagens na lombar no momento das contrações. Em algum momento, minha mãe também se juntou a nós e entrou no rodízio da massagem. A doula também administrava florais, água com mel para não baixar a glicose e até comi um pouco de gelatina. Mas a verdade é que não dá vontade de comer… Eu não sei dizer os horários nos quais as coisas aconteceram pois o tempo se torna algo secundário nesse momento. Foram horas que passaram e eu não senti. Perguntei para meu marido essa questão do tempo e ele também disse que não sabia, que tudo pareceu rápido. Acredito que estar concentrado no processo faz você perder a noção do tempo mesmo.

Uma coisa que me preocupava é que eu tinha consulta com o médico às 9h da manhã. Desde que optei por um parto normal, me informei e resolvi por mim mesma ficar o máximo de tempo possível em casa porque é o lugar onde me sinto mais confortável e acolhida. Tinha certeza que no hospital, por melhor que fosse, não teria a atmosfera segura da minha casa, mesmo se fosse um lugar “humanizado”, o que não era nem um pouco. Então, às 9h meu marido ligou para o médico e falou com a secretária que disse: “O procedimento padrão quando se estoura a bolsa é ir para o hospital. Lá a gestante passa pela triagem e o médico responsável liga para nós com as informações. Assim, o doutor passa para ele o que fazer enquanto ele se desloca.”. OK. Eu resolvi ficar em casa o máximo de tempo que eu achasse plausível. Na pior das hipóteses o médico iria me ligar e me xingar, né?

Nesse ponto do processo as contrações já estavam fortes. Eu já havia começado a chorar e querer que tudo acabasse o mais rápido possível. Cada contração parecia que alguém estava puxando os ossos da minha bacia para lados opostos, sem contar a dor no útero em si e o líquido que escorria perna abaixo. Embora existam várias posições indicadas para o momento da contração, eu me senti melhor sentada na bola de pilates em frente a minha cama. Meu marido me olhava enquanto eu apertava os joelhos dele a cada nova contração e me dizia: “Amor, tu queria entrar em TP e já entrou. Tu queria a experiência. Não precisa levar isso até o fim se tu achar que não vai aguentar…”. Eu realmente achava que não ia aguentar. A doula me dizia que eu precisa encontrar um sentido naquilo para continuar. Qual a importância, para mim, da maneira da Stella vir ao mundo? Eu não consegui achar uma resposta em meio a dor. O mais interessante é que nos momentos entre contrações era como se nada estivesse acontecendo. Não existia dor entre contrações. A pena é que esse momento é curto na maior parte do tempo!

Quando passou das 11h eu resolvi que iria para o hospital antes que o médico me ligasse. Resolvi tomar um banho e meu marido ficou comigo fazendo massagem na lombar durante as contrações. No banho a dor diminuiu bastante, foi como se as contrações tivessem voltado a ser como no início do TP… Saí do banho, coloquei qualquer roupa e fomos para o hospital. Eu, de joelhos no banco de trás, olhando pelo vidro traseiro.

Chegamos no hospital e fui caminhando pelos corredores tendo uma contração aqui outra ali, mas bem mais fracas e espaçadas do que em casa. Chegando na porta do centro obstétrico dei meu nome e já me esperavam pois meu médico já havia ligado para saber de mim, e começaram as más notícias: 1) eu tinha que entrar sozinha e assim permanecer até depois da triagem – triagem necessária para ligarem para meu médico; 2) eu não poderia ingerir nada, nem água; 3) eu precisava ficar sentada em cima da cama com a máquina de monitoramento fetal ligada a mim a todo momento, impedindo que eu me movesse; 4) eu não podia ter acesso a nenhum instrumento facilitador do parto, como a bola de pilates, a menos que meu médico permitisse, o que ocorreria apenas quando ele chegasse.

Bem, eu fiquei bem chateada de estar sozinha. Enquanto eu esperava a triagem, em uma sala onde eu era a única mulher em trabalho de parto, eu tive apenas uma contração e foi quando meu marido entrou para falar comigo, e logo foi mandado embora porque eu ainda não havia sido examinada. A segunda contração foi na sala de triagem quando a médica entrou. Me perguntou quando havia rompido a bolsa e eu menti o horário (assim eu seria xingada, mas ninguém estaria me colocando numa maca e me mandando pra sala de cirurgia…). Ela me perguntou por que eu não havia ido ao hospital e eu respondi: “Não vi razão de vir para o hospital sendo que minha casa é muito mais confortável.”. Ela só me olhou… Examinou e eu tinha sete centímetros de dilatação. Só sete centímetros de dilatação em dez horas de trabalho de parto. Eu não desanimei, mas esperava estar naquela média de um centímetro por hora. Mas pensei: “Vai que agora meu corpo abre super fácil e em duas horas isso tudo acaba, né?!”. A esperança é a última que morre! Meu obstetra certamente me achou “super boa na dilatação”, afinal, pela informação que ele tinha, meu TP estava evoluindo mais de um centímetro por hora. Me colocaram, então, na sala de parto onde meu marido pode entrar e meu TP pode ser retomado. No entanto, eu reclamei com as enfermeiras que não só me amarraram com a máquina de monitoramento como me fizeram segurar os eletrodos, reclamei de não poder ter a bola a minha disposição, de não me deixarem tomar água e do soro que me colocaram e que passou o TP todo (e os dias que se seguiram) me incomodando, porque me foi feito acesso na dobra do braço, então o soro parava e eu tinha que ficar cuidando para não dobrar o braço (por três dias!!!), o que foi bem chato quando estava tendo contrações e me agarrando na cama! Cada pequena coisa que não saía como eu esperava, me tirava um pouco da força psicológica necessária para o momento.

Com a chegada do meu obstetra, fui liberada do monitoramento contínuo e tive acesso a bola de pilates, a qual era minúscula comparada a que eu tinha usado até então e estava um tanto murcha. Sentei na bola ao lado da cama e minha cabeça ficou na altura da cama. Nas contrações eu me agarrava nos ferros debaixo da cama enquanto meu marido fazia massagem na lombar com óleo específico. Eu pedi para que diminuíssem a luz, mas cada vez que alguém entrava, por alguma razão, na sala, acendia todas as luzes, abria a porta e ia embora deixando tudo como estava. Então, meu marido parava tudo, levantava e fechava a porta e diminuía as luzes.

Diferente de casa que eu não tinha noção do horário, no hospital havia um relógio de parede bem na minha frente. De hora em hora o médico vinha examinar a dilatação e a frequência cardíaca do bebê exatamente em um momento de contração. Essa é uma coisa muito chata! Eu havia me preparado para estar na melhor posição possível durante a contração, respirando fundo para diminuir a dor e tentar deixar o corpo fazer o que necessita, mas ter uma contração sentada em uma cama e ainda ter alguém lhe examinando no exato momento tira toda a sua concentração. Nesse momento eu acabava quase que segurando a contração, tamanha era a dor dela quando em cima da cama, e o desconforto do exame naquele momento. Minha tolerância foi diminuindo ao ponto de eu decidir que se às 15h não tivesse chegado a dez centímetros, eu iria fazer uma cesariana. No entanto, embora sem tem chegado na dilatação desejada, continuei. Minha mãe chegou para me ver mas não deixaram ela entrar. Então, a única enfermeira que foi minimamente solidária comigo, chamou minha mãe que ficou ali comigo. Às 16 horas, no novo exame, depois de cerca de duas horas com contrações ritmadas de cinco em cinco minutos, meu obstetra disse que eu permanecia com os mesmo sete centímetros da chegada ao hospital e agora com um edema de colo (inchaço no colo do útero). Quando eu fiz as contas, notei que estava há 13 horas em trabalho de parto e nesse cenário de não evolução. Embora eu tenha me informado que médicos dão apenas 12h para o bebê nascer desde o rompimento da bolsa, mas parteiras seguem outro padrão, eu fiquei receosa em continuar a tentar o parto natural, ainda mais sabendo que o inchaço dificulta a passagem do bebê. O obstetra sugeriu o uso da ocitocina e eu sabia que então precisaria de anestesia. Na minha cabeça apenas pensei: “Se é para anestesiar, que acabemos com isso logo.”. Assim, ele começou a ligar para os anestesistas com os quais trabalha e para sua assistente. Chorei, olhei para meu marido e perguntei se me amaria mesmo assim… Ele riu e disse que me amaria se eu tivesse decidido pela cesariana na primeira hora do TP. Minha mãe me abraçou e disse que estava muito orgulhosa de mim. A partir daquele momento, eu só queria que as dores parassem. No entanto, não é porque você opta pela cesariana em meio ao TP que seu corpo pára, não é? As contrações continuaram ritmadas de cinco em cinco minutos, mas na minha cabeça, no período da decisão até a sala de cirurgia, o que durou uma hora e meia, eu tive umas três contrações. Até pensei que o poder psicológico era algo incrível, pois eu tinha conseguido parar as contrações. Meu marido disse que eu sonhei tudo isso, porque elas continuavam ritmadas, a diferença é que eu dormia no intervalo entre elas!

Finalmente o anestesista chegou e me encaminharam para a sala de cirurgia. Eu senti um misto de alívio e decepção, mas já haviam me dito que quando o assunto é parto, nós genitoras temos pouco controle sobre o desfecho. Assim que entrei na sala, o médico me colocou em posição para a anestesia, a qual é um pequeno incômodo, principalmente a medida em que o líquido entra no corpo, mas nada demais quando você já sentiu contrações. Me deitaram o mais rápido possível antes de eu não poder fazer por mim mesma e logo começaram a perguntar sobre o que eu sentia e onde. Não demorou muito para eu deixar de sentir o peso da barriga. Foi um alívio! Acho que em questão de dois minutos eu já não sentia o movimento em si, mas sentia que estavam mexendo em mim. Eu ainda perguntei pro anestesista se eu ia começar a enxergar duendes e unicórnios, mas ele disse que não, e disse: “Ué? Tu tem que ver teu bebê nascer!”. Eu não tinha pensado nisso… Haha! Logo meu marido sentou junto de mim e começaram o procedimento. Eu sentia o cheiro de carne queimada a medida que o bisturi elétrico cauterizava o corte que fazia, mas fiquei conversando com o anestesista e fazendo perguntas… De repente vi o Leandro se levantar, olhar por cima do lençol e começar a chorar. Ouvi o médico elogiando a bela circular de cordão da Stella… Ouvi ela chorando… Tudo parecia muito fora da realidade. De repente mostraram ela para mim e a colocaram enrolada em cima do meu peito, mas o espaço era tão pequeno que eu tinha medo de me mexer. Apenas toquei no rosto dela e fiquei meio atônita e até perguntei: “É minha mesmo? Saiu de mim?”. A pediatra riu e disse que sim. Eu não sabia o que fazer, mas fiquei com muito medo de tentar pegar ela e deixar cair por algum efeito da anestesia. Então deixei ela ir com o Leandro e a pediatra para os exames, testes, pesagem e etc. Agora eu penso que deveria ter tentado ficar mais com ela, mas não sei qual o procedimento, afinal, tinha um buraco aberto na minha barriga e eu não sei o que eu deveria ou não fazer. Enquanto ela estava longe fiquei conversando com os médicos, perguntando se finalmente poderia comer sushi e coisas do tipo. Eu confesso que me diverti durante a cirurgia…

Acredito que precisei da cesárea porque a Stella não estava encaixada. Embora todos os exercícios que fiz para o encaixe do bebê, ela não encaixou e provavelmente só o faria na fase expulsiva. Talvez a falta de encaixe tenha sido a razão da pouca evolução na dilatação, pois eu acredito que a cabeça encaixada ajude a pressionar o colo do útero, não é? Como ela nasceu com a cabeça levemente pontuda, acredito que ela estava encaixando durante o TP. Também acredito que a falta de evolução no TP desde a chegada no hospital tenha um fator psicológico imenso. A simples troca de um ambiente acolhedor, com pessoas que você confia, para um ambiente hostil como o de um hospital, onde ninguém liga para você é você é só “mais um”, certamente mexe com a sua segurança. Eu acredito que se, ao menos, minha doula pudesse estar comigo na sala de parto as coisas teriam sido um pouco diferentes. Mas eu não quis me indispor com meu médico… No entanto, a sala de parto é um lugar frio, nenhum pouco acolhedor. Se você tiver que ir para o hospital sozinha, a sala de parto é um ambiente desumano. Meu médico só entrava ali para me examinar e em nenhum momento ele ficou ali, deu uma dica de posição ou o que. Os médicos realmente não sabem lidar com pessoas.

Embora no momento da dor das contrações a cesárea tenha parecido uma boa idéia, no decorrer do tempo eu notei que não foi. Primeiro, acho que a sensação de sentir seu bebê saindo de você seja algo transformador. Quando eu vi a Stella, tirada de mim, não parecia que era algo que estava dentro de mim. Parecia um presente que alguém me deu… Por muitos dias depois do parto eu tinha essa sensação estranha de que eu ia ter que devolver ela para alguém, como se ela não fosse minha de verdade. Eu acho que essa sensação é fruto da cirurgia, porque o bebê não sai naturalmente de você, ele é extraído!
Eu tento não me sentir mal pelo desfecho do nascimento da minha filha, mas agora eu enxergo ainda mais a importância do parto natural na vida de uma mulher. Eu respeito as mulheres que escolhem marcar data para a cirurgia do nascimento do filho, mas não entendo. Embora eu seja uma pessoa que presa por controle, a vida não pode ser controlada. Não cabe a nós escolhermos a hora para o início da vida, nem a forma. Geramos um ser humano, damos a luz a um ser que terá personalidade própria e suas próprias escolhas. Nada mais natural do que deixar que ele escolha como e quando quer vir ao mundo. Passaremos os próximos 18 anos tentando fazer suas escolhas por ele, com a desculpa de proteger e mostrar o melhor caminho. Então, por que negar a ele a primeira escolha que pode fazer sozinho, a de como começar sua vida?

Stella